Recebi uma carta.
Uma carta escrita à mão, não um e-mail nem uma página digitada e impressa. A caligrafia era bonita, firme e fácil de ler. Ela estava sobre uma pilha de exames, quase como uma introdução ao que eu encontraria a seguir.
A carta dizia:
Querida Gabriela,
Querida, não porque eu tenha afeto por você, mas porque aprendi que as cartas começam assim.
Meu câncer está de volta. Com ele, também voltaram o choque e o medo que senti quando recebi o primeiro diagnóstico.
As incertezas estão novamente aqui. Preciso saber sobre o novo tratamento e sobre o meu futuro, se é que você pode me responder alguma coisa a respeito dele.
Sei que você dirá que o desconforto que estou sentindo é compreensível. Mas eu nunca imaginei que ouviria esse diagnóstico outra vez.
Tenha certeza de que, desta vez, ele é ainda mais angustiante do que foi na primeira. É mais difícil, mais desalentador e, para não dizer desesperador, quase impossível de aceitar.
Por que você não me avisou que o câncer poderia voltar?
Por que não me preparou para isso?
Por que não me disse que ele voltaria?
Abri os exames e, como agora me considero “formada no assunto”, achei melhor contar o que estou sentindo antes mesmo que você os avaliasse.
Sinto-me enganada, usada como cobaia e desassistida pela vida.
Não foi suficiente tudo o que já passei?
Como você acha que enfrentarei tudo isso novamente?
Ou você vai me dizer que, desta vez, será diferente?
Aguardo suas observações.
Um abraço,
Cinara
Terminei de ler a carta e olhei para os exames.
Antes de pensar em qualquer resposta, eu precisava avaliá-los com atenção. Não poderia permitir que a força das palavras de Cinara interferisse na análise técnica.
Primeiro, precisava compreender o que os exames mostravam.
Depois, teria de pensar em como responder não apenas à doença, mas a tudo o que estava contido naquela carta: medo, indignação, frustração e uma sensação profunda de ter sido traída pelo próprio corpo.
Os exames confirmavam: o câncer havia voltado.
Quando uma doença reaparece depois de um período em que não era mais detectada, falamos em recorrência. Isso pode acontecer no mesmo local do primeiro tumor, em estruturas próximas ou em outra parte do organismo.
Cinara, porém, não precisava apenas de uma definição médica.
Ela queria saber por que ninguém havia lhe garantido que aquilo não aconteceria.
Queria entender por que enfrentara a cirurgia, o tratamento, os exames e o medo para, algum tempo depois, receber novamente uma notícia que acreditava ter deixado para trás.
Sua pergunta era direta:
“POR QUE VOCÊ NÃO ME AVISOU?”
Eu precisava responder com honestidade:
Não lhe disse que o câncer voltaria porque eu não sabia se isso aconteceria.
Nenhum acompanhamento permite prever com certeza absoluta o que acontecerá com cada paciente. Podemos oferecer o tratamento considerado mais adequado, acompanhar a resposta, realizar os controles necessários e permanecer atentos. Ainda assim, existem situações que não conseguimos antecipar.
Talvez eu devesse ter conversado mais claramente com Cinara sobre essa possibilidade. Não para fazê-la viver esperando pela volta da doença, mas para que compreendesse a razão de mantermos o acompanhamento mesmo depois do fim do tratamento.
Ao mesmo tempo, prepará-la não significaria dizer que o câncer certamente voltaria.
A possibilidade de uma recorrência não é uma condenação. É uma possibilidade clínica que precisa ser acompanhada.
Existem diferentes formas de recorrência.
A recorrência local acontece quando o câncer reaparece no mesmo local em que foi identificado inicialmente ou em uma área muito próxima.
A recorrência regional ocorre em tecidos ou linfonodos próximos à região do tumor original.
A recorrência distante acontece quando a doença é identificada em órgãos ou áreas mais afastadas do local onde começou.
Também existe a possibilidade de surgir um novo câncer, sem relação direta com o primeiro. Nesse caso, não se trata de uma recorrência, mas de um segundo tumor primário.
Essas classificações ajudam a equipe a compreender a situação e a definir os próximos passos. Mas, para Cinara, naquele momento, todas elas significavam a mesma coisa:
enfrentar novamente o câncer.
Ela me perguntava se teria de passar por tudo outra vez. Eu não poderia responder antes de avaliar detalhadamente os exames, confirmar a extensão da doença e discutir as possibilidades de tratamento.
Também não poderia prometer que seria fácil ou assegurar que tudo aconteceria de maneira diferente.
Poderia, porém, dizer que uma recorrência não apaga o que havia sido feito antes.
O tratamento anterior não havia sido inútil. Cinara não fora usada como cobaia. Cada decisão havia sido tomada com base no que sabíamos naquele momento e naquilo que era necessário fazer.
A volta da doença não era culpa dela.
Também não significava negligência de quem a tratou.
Era uma possibilidade difícil, mas possível, da própria doença.
Pensei em como lhe responder:
Cinara,
Li sua carta e avaliei seus exames com atenção.
Sim, o câncer voltou.
Sei que essa confirmação pode ser ainda mais difícil do que o primeiro diagnóstico. Naquela ocasião, você enfrentou algo desconhecido. Agora, além do medo, existe a lembrança concreta de tudo o que já viveu.
Você me perguntou por que eu não lhe disse que o câncer voltaria. Eu não disse porque não era possível saber se isso aconteceria.
Poderia ter havido uma remissão duradoura, sem qualquer sinal da doença. Também existia a possibilidade de uma recorrência. Era por esse motivo que mantínhamos o acompanhamento e os exames periódicos.
Talvez eu devesse ter conversado com você de forma mais clara sobre essa possibilidade. Mas jamais poderia afirmar que a doença voltaria, porque isso também não seria verdadeiro.
Agora precisamos compreender exatamente onde ocorreu a recorrência, qual é sua extensão e quais tratamentos podem ser considerados.
Você não é culpada pelo que aconteceu. E o tratamento anterior não foi inútil.
Não lhe direi que será fácil. Também não prometerei respostas que ainda não tenho.
Posso lhe garantir que analisaremos todas as possibilidades com seriedade e que você participará das decisões.
Espero você em dois dias. Conversaremos sobre os exames, sobre o tratamento e sobre tudo o que você escreveu.
Primeiro, cuidaremos das informações.
Depois, juntas, definiremos os próximos passos.
Eu sabia que Cinara provavelmente consideraria minha resposta técnica demais.
E talvez ela tivesse razão.
A técnica é a forma como organizo as informações, avalio possibilidades e procuro tomar decisões responsáveis. Mas ela não elimina o reconhecimento da dor de quem precisa enfrentar uma doença pela segunda vez.
A recorrência exige uma nova avaliação, outras decisões e, muitas vezes, um novo tratamento. Mas também exige que o paciente tenha espaço para expressar raiva, medo, cansaço e até a sensação de injustiça.
Cinara não precisava ser repreendida por estar desesperada.
Precisava ser ouvida.
Quando ela voltasse ao consultório, eu teria de lhe explicar o que os exames mostravam e o que poderíamos fazer dali em diante. Não poderia responder quanto tempo teria, garantir o resultado do tratamento nem apagar o que ela já havia vivido.
Mas poderia estar preparada para aquela conversa.
O câncer havia voltado. Nosso trabalho, agora, era compreender o que isso significava e decidir como enfrentá-lo. Dra. Gabriela Santos – Mastologista




